Eu deveria fazer teatro. Deveria ter ficado até hoje na oficina da Terreira, e agora seria uma atriz de sucesso. Pobre, claro, mas uma maravilhosa farsante.
Até porque eu ganharia mais do que reconhecimento e satisfação pessoal dessa maneira. Fingir eu já finjo, e com que brilhantismo!
Finjo tão bem que pessoas são ludibriadas durante anos por mim. Durante toda uma convivência. E me crêem uma amiga fiel e verdadeira! Pobres tolos!
E esse texto poderia virar uma confissão que acabaria com anos de tramas tão bem urdidas. Mas não!! Todas essas pesoas que iludo - elas têm a si mesmas em tão alta conta, ou minha fidelidade como tão absoluta verdade - jamais suspeitarão de que é delas que falo.
Hás de concordar comigo: elas merecem ser enganadas. Merecem que alguém misteriosamente ria às suas custas. Muito embora essa seja uma vingança silenciosa. Muito embora apenas eu saiba sobre seus detalhes. Firo-lhes o orgulho sem que suspeitem. Mino-lhes a estima de maneira tão astuta que jamais percebem meu artifício.
Um dia encontrar-se-ão suspeitosas e enfraquecidas, com a confiança estilhaçada por uma miríade de pequenas coisas. Terão medo de sair às ruas para virarem alvo de chacota; terão medo de falar em voz alta para serem desprezadas - terão medo, enfim, de viverem - mas jamais suspeitarão do único ombro amigo que ainda se-lhes apresentará.